![]() |
Foto: Pixabay |
Eram umas 8h30 da última quinta-feira de agosto. Olhei para o espelho pela última vez antes de deixar o banheiro quando uma pontada oprimiu meu peito. Ainda contemplei o espelho, ou minha cara, para verificar alguma alteração na pele, olhos ou o que me desse alguma explicação para aquela dor. Não vi nada, só meus olhos ainda sonolentos.
Voltei
para o quarto e sentei na cama, ainda pensando que aquela dor seria decorrente
de várias noites de pouco sono. Nada, continuava lá. Podem me chamar de frouxo,
mas não vi perspectiva daquilo passar, o jeito seria procurar ajuda. Pedi que
Manuela, minha esposa, me levasse a uma emergência ao menos para tirar a
dúvida. Mas essa dúvida virou certeza ainda dentro do carro. A dor aumentou e,
para piorar, senti o braço esquerdo pesar.
“Acho
que estou infartando”
A dor
não dava uma trégua. Comecei a chorar e a gritar dentro do carro. Estávamos na
Av. Rui Barbosa, para quem não sabe uma das mais engarrafadas na área central
do Recife, onde, se você conseguir passar a terceira marcha vai se sentir
voando.
Sei que
existem dores mais horríveis do que a que senti, tenho certeza. A do parto é
uma delas. Mas toda dor traz um alerta, te dá um aviso. A dor de parto tem algo
de sublime e sagrado. Celebra a vida. É o grito que nos dá a luz. É o esforço
para nos fazer respirar.
A dor de
um infarto é todo seu oposto, negação. É a dor de se agarrar à vida, de
suplicar para que ela te dê uma horinha extra. Quando nascemos, nossa primeira
manifestação é um berro de dor quando o ar enche nossos pulmões pela primeira
vez. Ali, eu berrava para que não fosse a última. Ainda mais curioso é que
mesmo numa situação tão limite, um traço do egoísmo, este talvez o maior
problema da humanidade, dê o ar de sua (des)graça: “Meu Deus, se eu morrer
agora, meus filhos não vão lembrar de mim. Vou ser só uma foto”.
No
primeiro atendimento foi constatada a pressão alta (18/10). Um exame de sangue
para saber o nível de troponina (uma enzima de delata o infarto) e analgésico
na veia. Até Rivotril me deram para acalmar – e que não fez efeito, diga-se de
passagem. De tudo, adiantou apenas a medicação para a pressão. O exame de
sangue, normal. Na terceira tentativa, suspeita do médico de que fosse refluxo
porque a dor diminuiu com dois medicamentos. Voltei para casa.
Ao longo
da tarde a dor voltou firme, inabalável como uma rocha, até entrar pela noite.
Não aguentei mais e fui para outro hospital, desta vez. O mesmo exame de
sangue, acrescido de antiinflamatório na veia e raio-x do tórax. Desta vez a
medicação fez efeito. A dor sumiu. Mas era preciso o resultado do exame para a
liberação. E nada de chegar. E como acontece quase sempre nesses casos... a
pessoa se sente a dona do mundo porque está recuperada, esquecendo
completamente de que não era quase nada horas atrás.
Após
horas, o exame chegou com um banho de água fria para quem achava que iria para
casa: a enzima, que aparece negativamente na corrente sanguínea de pessoas
saudáveis, estava em 15.
- Está
muito alta. Como você está gripado, pode ser uma miocardite, uma conseqüência
da virose, quando alguma célula do coração é atingida. Ou pode ser infarto. Vou
lhe encaminhar para a UTI porque eles fazem uma série de exames para descartar
o infarto.
- Tá.
Por
volta das 3h da manhã da sexta-feira (31), mais um exame de sangue. Às 7h chega
o médico chefe da UTI, acompanhado de outra médica.
- A sua
troponina está em 21. Vamos fazer um cateterismo para verificar a possibilidade
de infarto. Se for, já fazemos a angioplastia. Você vai ficar de jejum umas
cinco horas. De meio-dia fazemos, certo?
- Certo.
Às 11h,
chega o médico responsável pelo cateterismo. Conversamos, eu, ele e meu sogro,
que já estava lá, sobre o procedimento. Explicou tudo detalhado, assim como eu
detalhei tudo que sentira desde a manhã do dia anterior. Os dois se afastaram
conversando e quando estavam bem perto da porta, consegui ouvir quando o médico
falou: “Tenho certeza de que foi infarto”. Quase falei de onde estava: “Eu
também”.
Meio-dia
em ponto fui para a sala. Sou colocado numa maca mais estreita que minhas
costas. É feito um protocolo de segurança em que o paciente é amarrado pelo
pulso esquerdo à maca. Ao meu lado, um telão enorme, provavelmente onde
passaria o filme do meu coração dali a instantes. Já estava com os cabelos das
duas coxas raspados porque, se o médico não conseguisse entrar pela artéria
radial usaria a femoral.
A
primeira dose da anestesia entra queimando. Mas é inegável a sensação boa que
dá – acho que fui junkie em outra vida. A segunda é melhor ainda. Na terceira
você nem sente. Apaga. O procedimento é a entrada do cateter pela radial (o
ponto escuro no meu pulso, na foto). Ele chega até o coração, onde o médico vai
verificando as outras artérias. Encontrou uma obstrução na artéria marginal 2.
Uma
artéria tão parecida comigo. Discreta, escondidinha ali meio que por trás do
coração. Mas que resolveu aparecer com força. Por sua discrição ela
praticamente não altera o eletrocardiograma – todos deram normais, embora o
chefe da UTI tenha afirmado que se uma pessoa ‘olhar querendo’ vê uma discreta
alteração. Mas essa mesma timidez também fez com que o dano fosse menor. Para
por um fim à obstrução foi colocado um stent, uma haste de metal para abrir a
artéria e deixar o sangue passar.
Acordei
já na UTI, tiritando, com a língua um pouco enrolada e com a sensação que a UTI
meio que flutuava. Resumindo: tava meio doidão. No pulso direito um curativo
grande e apertado. “Para evitar risco de sangramento”, disseram.
A partir
dali foram mais dois dias sem sequer poder ir ao banheiro – não vou entrar em
detalhes sobre esse assunto – na cama e sem conseguir dormir por conta da
intensa movimentação da UTI, onde parece que todo mundo sempre chega durante a
madrugada, inclusive eu. Uma pilha de remédios, injeções e exames de sangue que
confirmaram a enzima ‘infartosa’ dando adeus à minha corrente sanguínea.
Foi
difícil, mas me deu oportunidade de encontrar pessoas incríveis dentro do
hospital, que se importam com o ser humano com uma entrega que só havia visto
na ficção. Descobri o quanto tanta gente se preocupou comigo e mandou forças
positivas, tenho certeza que dessa soma veio o sucesso no meu tratamento.
Não vou
romantizar e dizer que vi a cara da morte, que ela soprou no meu ouvido e blá,
blá, blá. Realmente não tenho noção do que escapei, se foi por pouco ou muito. A
sensação que tive é de que ela me viu mais de perto do que eu a ela. De minha
parte pareceu como se ela fosse Cristiano Ronaldo comemorando um gol, dizendo: ‘Eu
tô aqui’. Porque por mais que a gente se ache indestrutível na maior parte do
tempo, quando atingimos o auge de nossa arrogância, algo nos faz
descer do pedestal.
Nenhum comentário:
Postar um comentário